Diálogos com a imprensa: criando um protocolo de cobertura jornalística de crimes de violência doméstica
Diálogos com a imprensa: criando um protocolo de cobertura jornalística de crimes de violência doméstica
1 - Identificação do projeto
Diálogos com a imprensa: trabalhando em conjunto para promover cobertura jornalística que protege e respeita os direitos das mulheres
2 - Contexto do projeto
O Núcleo Judiciário de Solução de Conflitos e Cidadania da Mulher (NJM) procurou o Laboratório de Inovação Aurora (AuroraLab) com a necessidade de abrir um espaço de diálogo com a Imprensa do Distrito Federal (DF) visando gerar reflexões sobre a cobertura das situações de violência doméstica e de situações de feminicídio e uma possível mudança na cobertura jornalística.
O NJM é a unidade do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios (TJDFT) responsável por elaborar e implantar programas e projetos na área de combate e prevenção à violência doméstica e familiar contra as mulheres, entre outros.
3 - Problemas Identificados
O NJM percebia na mídia o potencial de consistir em uma peça importante na rede de proteção à mulher diante de seu papel de informar, o que não se observava sempre na prática. O tom das reportagens, com certa frequência, aumentava a sensação de falta de proteção e desencorajava mulheres a registrarem ocorrência, baseadas na ideia de que a prática não é eficaz. Tal enfoque contrastava em muito com o que as estatísticas do Distrito Federal sugeriam: a maior parte das vítimas de feminicídio nunca havia registrado ocorrência nem buscado medidas protetivas, sinalizando para a eficácia das medidas como forma de proteção. Além disso, as profissionais especialistas na área observavam que, com certa frequência informações privadas sobre a vítima eram divulgadas de maneira inadequada. Por fim, havia a preocupação de que, em algumas situações, o tom da cobertura - que dava excessiva voz aos autores de feminicídio ou romantizava aspectos do crime - pudesse estar funcionando como um incentivo a novos feminicidas.
Diante desse cenário, a equipe do NJM demandou o apoio do AuroraLab para desenvolverem em conjunto uma solução que permitisse sensibilizar profissionais de mídia e veículos de imprensa sobre seu papel na rede de proteção e enfrentamento à violência contra as mulheres.
4 - Objetivos
Sensibilizar jornalistas e veículos de comunicação do DF sobre a necessidade de proteger os direitos das vítimas e de fazer coberturas jornalísticas que incentivem a busca de ajuda e o registro de ocorrências de violência contra as mulheres, tendo em vista que essa é uma importante medida de proteção.
O contexto identificado apresentou alinhamento com os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável 5 e 16, conforme segue:
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ODS 5. Alcançar a igualdade de gênero e empoderar todas as mulheres e meninas
5.2 Eliminar todas as formas de violência contra todas as mulheres e meninas nas esferas públicas e privadas, incluindo o tráfico e exploração sexual e de outros tipos.
5.c Adotar e fortalecer políticas sólidas e legislação aplicável para a promoção da igualdade de gênero e o empoderamento de todas as mulheres e meninas em todos os níveis.
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ODS 16. Promover sociedades pacíficas e inclusivas para o desenvolvimento sustentável, proporcionar o acesso à justiça para todos e construir instituições eficazes, responsáveis e inclusivas em todos os níveis
16.1 Reduzir significativamente todas as formas de violência e as taxas de mortalidade relacionada em todos os lugares.
16.3 Promover o Estado de Direito, em nível nacional e internacional, e garantir a igualdade de acesso à justiça para todos.
5 - Público-alvo
Profissionais da imprensa dos principais veículos de comunicação e de assessoriais de comunicação social dos órgãos públicos do Distrito Federal.
6 - Resultados esperados
Adoção de formas de cobertura jornalística baseadas na promoção da proteção das mulheres e meninas, livres de perspectivas machistas e que encorajem o registro de ocorrência.
7 - Etapas de execução do projeto
Desde o início, esse projeto foi realizado em colaboração entre NJM, AuroraLab e Assessoria de Comunicação Social (ACS), tendo cada área atuado de acordo com sua expertise. Decidiu-se pela adoção do Design Thinking, uma abordagem estruturada em etapas que estimula os participantes a enxergarem problemas e desenvolver soluções sob a perspectiva central do usuário.
Assim, o projeto seria desenvolvido em 4 etapas:
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Etapa de descoberta: é a fase da empatia, o momento de compreender o usuário, a sua visão de mundo, o que ele sente e como realiza as suas atividades.
Nessa etapa, os três setores envolvidos dedicaram-se a se aproximar da realidade que se buscava atingir de diferentes perspectivas. A Assessoria de Comunicação Social (ACS) estabeleceu contato com jornalistas e organizações relacionadas ao jornalismo. O Núcleo Judiciário da Mulher (NJM) se dedicou ao levantamento de dados sobre a realidade local e à busca e elaboração de materiais informativos. O AuroraLab, por sua vez, aplicou técnica de Desk Research na busca de identificar práticas de melhoria na cobertura jornalística de violência contra as mulheres.
Tinha-se conhecimento da publicação da Organização Mundial da Saúde, do ano de 2000, intitulada: “Prevenção do suicídio: um manual para profissionais da mídia”. Sua motivação se baseava em estudos que haviam encontrado correlação entre o tipo de cobertura midiática e o aumento do número de suicídios. O documento ao longo do tempo ganhou grande adesão dos veículos de comunicação ao redor do mundo. Ele traz recomendações para profissionais de mídia sobre a divulgação de suicídios, como: não divulgar o método empregado, fotos e evitar coberturas sensacionalistas, sobretudo quando se tratar de personalidades públicas.
Nesse sentido, realizou-se levantamento de guias, diretrizes e recomendações existentes no Brasil e no mundo para a cobertura jornalística de casos de violência contra as mulheres, tendo sido encontrados documentos escritos de sete organizações que citam, de alguma forma, recomendações: Think Olga (Brasil), Women’s Scotland, Zero Tolerance UK, Women’s Aid UK, Oregon Coalition Against Domestic and Sexual Violence, Our Watch, Journo Resources UK. Ademais, foram compiladas recomendações presentes em entrevistas, webinários e depoimentos, ainda que não figurassem como documentos sistematizados. Ao total, foram listadas 109 recomendações nos diversos meios pesquisados.
Ao final dessa etapa, como usuários, considerou-se duas perspectivas e as necessidades de cada uma delas: a) vítimas da violência: que precisam ter sua vida, sua privacidade e seus direitos respeitados, inclusive quanto à sensação de segurança nas instituições e políticas públicas de proteção; b) jornalistas: que trabalham com informações para a produção de notícias, precisam de muita celeridade nas respostas e no acesso a dados e pessoas a serem entrevistadas para produzirem matérias de qualidade.
b) Etapa de definição: com análise detida de todos os dados levantados, bem como dos insights das descobertas realizadas, a fim de se convergir para a delimitação do problema a ser solucionado.
A definição do problema girou em torno da busca por maneiras de estreitar o diálogo com os meios de comunicação para aproximá-los da realidade sobre os dados, os serviços e esforços existentes e, sobretudo, seu importante papel social na promoção da proteção de mulheres vítimas de violência.
c) Etapa de elaboração da solução: momento de gerar ideias para alcançar uma solução para o problema.
Diante das propostas criadas, optou-se por criar o Seminário “Diálogos com a Imprensa”, evento de dois dias para apresentar o contexto aos jornalistas e produzir um rascunho de protocolo para a cobertura jornalística de forma conjunta.
A mobilização e o convite a todos os veículos de imprensa do Distrito Federal foram feitos pela ACS. Para isso, foi elaborado um material de divulgação (press kit) com informativos e peças específicas para o evento com: infográfico para apresentação dos dados contrastando mitos e verdades sobre as medidas protetivas, glossário sobre conceitos relacionados ao efeito de contágio e à violência doméstica e brindes em geral identificados com a temática.
A programação foi dividida em dois encontros:
1º dia (14/08/2023): Palestras, apresentações de dados, discussão e estudo de caso:
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Apresentação de levantamento realizado pela jornalista Marisa Sanematsu sobre machismo e gênero nas coberturas jornalísticas.
Marisa Sanematsu é especializada em cobertura jornalística relacionada aos direitos da mulher e à violência contra as mulheres.
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Apresentação pela Juíza Fabriziane Zapata de informações e dados acerca da Lei Maria da Penha, dos trâmites processuais, das possibilidades de proteção e dos esforços das políticas públicas relacionadas ao combate à violência contra as mulheres no Distrito Federal.
Fabriziane Zapata é Juíza no TJDFT com atuação no Juizado de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher do Riacho Fundo (DF), além de ser Juíza Coordenadora do NJM.
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Estudo de caso a partir de reportagens reais, com participação das pessoas presentes.
Legenda: Juíza Fabriziane Zapata, do TJDFT, e Promotora Gabriela Gonzales.
2º dia (21/08/2023): Palestra e oficina:
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Apresentação da Promotora Gabriela Gonzales sobre efeito de contágio e características das coberturas jornalísticas (que aumenta a ocorrência do comportamento indesejado no período que se segue).
A Promotora Gabriela Gonzales atua na Promotoria de Justiça de Defesa da Mulher em Situação de Violência Doméstica e Familiar do Recanto das Emas (DF) e, em sua dissertação de mestrado, analisou a cobertura jornalística e estudou o conceito de efeito de contágio (que ocorre quando um evento tende a aumentar a ocorrência de um fenômeno, nesse caso, indesejado).
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Oficina de avaliação de diretrizes para elaboração futura de um Guia de Cobertura Jornalística, com facilitação do AuroraLab.
d) Etapa de entrega: nessa última fase, selecionaram-se as melhores ideias e desenvolveu-se um protótipo.
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As propostas de diretrizes identificadas e aperfeiçoadas na fase de empatia foram reunidas e apresentadas ao grupo para avaliação da pertinência, aplicabilidade e eficácia. Das 37 recomendações, 18 foram acolhidas, 19 foram acolhidas com modificações e duas rejeitadas. Ademais, foram propostas três novas recomendações pelos jornalistas. Além do protótipo para um guia de diretrizes de cobertura jornalística de situações de violência contra as mulheres (a ser aperfeiçoado e validado), o Seminário permitiu identificar caminhos para tornar a informação de mais fácil acesso aos jornalistas permitindo melhores subsídios para a atuação midiática.
8 - Desafios enfrentados
- Mobilizar profissionais da imprensa: a efetividade da ação dependia da mobilização efetiva dos profissionais. Isso foi alcançado através do trabalho conjunto com a Assessoria de Comunicação Social do TJDFT uma vez que essa unidade não só tem contato rotineiro com os profissionais, como condições de entender as rotinas e dificuldades.
- Sensibilizar para a necessidade de cobertura midiática que promova proteção e, ao mesmo tempo, evitar a impressão de que se trata de tentativa de controle da imprensa: ao longo do Seminário, ressaltou-se diversas vezes o papel da mídia de informar a população e expor os problemas quando eles ocorrerem. A ênfase foi colocada no convite à compreensão da magnitude dos impactos da cobertura cujas informações não condizem com a realidade dos serviços.
9 - Recursos utilizados
Papel, post-its, canetas, eco bags, materiais impressos, canva personalizado e data show.
10 - Melhorias implementadas
Aproximação dos jornalistas em relação aos procedimentos judiciais previstos em lei, às estruturas do TJDFT responsáveis pelo aperfeiçoamento do combate à violência doméstica e às medidas de combate que vêm sendo construídas em parceria entre segurança pública, judiciário, ministério público e políticas especializadas no atendimento à mulher
Apresentação de dados que desmistificam ideias frequentemente vinculadas pela mídia que reforçam a percepção equivocada de que as medidas protetivas de urgência não são efetivas
Apresentação de pesquisa sobre o efeito de contágio, que ocorre quando a veiculação de um comportamento acaba por multiplicar sua ocorrência. Embora não haja pesquisas nacionais, esse efeito já foi registrado no que se refere à multiplicação de casos de feminicídio em pesquisas estrangeiras
Apresentação de recomendações elaboradas por jornalistas de outros países e do Brasil e de especialistas na área para a cobertura de mídia na área de violência de gênero.
11 - Forma de acompanhamento das ações
A atuação do Laboratório de Inovação Aurora foi pontual, na facilitação par a construção do guia. Nesse sentido, não há acompanhamento a ser feito.
12 - Resultados obtidos
O Seminário conseguiu promover diálogo saudável entre as pessoas envolvidas e alcançou a criação de outros produtos, como:
Relatório de avaliação por jornalistas das diretrizes advindas do estudo de diretrizes internacionais.
Identificação de demanda sobre maneiras de disponibilização de dados e informações para jornalistas: redesenho do site do NJM com aba para Imprensa.
Identificação da necessidade de facilitar o contato com especialistas para subsidiar informações de qualidade: lista de especialistas e personagens (histórias reais de pessoas atendidas no espaço da justiça).
Construção de caminhos para a adoção das diretrizes a partir das sugestões dos participantes: visitar redações para atingir os editores (quem toma as decisões), buscar parcerias com outras organizações para dar visibilidade e favorecer adoção.
13 - Impactos e benefícios
A equipe de especialistas em violência doméstica do NJM observou diferença no tom da cobertura de feminicídios pelos principais veículos de imprensa do DF, sobretudo os ocorridos a partir de 2024. Houve diminuição do tom sensacionalista, da exploração de detalhes desnecessários, do uso de termos que romantizam o feminicídio. Ao mesmo tempo, aumento da abordagem da voz da vítima nas matérias e encorajamento da busca de proteção e de informações.
14 - Viabilidade e replicabilidade do projeto
Tratou-se de projeto de baixo custo e fácil replicabilidade. O ponto crucial residiu na colaboração entre unidades especializadas em distintas áreas: AuroraLab (especialista em inovação), NJM (especialista em violência doméstica) e ACS (especialista em imprensa).
15 - Alinhamento estratégico
O projeto "Diálogos com a Imprensa" foi alinhado com o planejamento estratégico vigente em sua criação (Plabi 2022-2024). Nesse sentido, a ação atendeu as diretrizes: promover a proteção das vítimas, contribuir para a excelência na prestação jurisdicional e aumentar a satisfação dos usuários com os serviços prestados, relacionadas à Sociedade. Além disso, reforça os objetivos estratégicos associados de garantir os direitos dos cidadãos, assegurar a excelência jurisdicional e fortalecer o relacionamento com a sociedade e outras instituições.
16 - Considerações finais
O Seminário “Diálogos com a Imprensa” teve a participação de 20 jornalistas representantes de cinco veículos de imprensa – incluindo todos os grandes veículos do Distrito Federal – e três Assessorias de Comunicação Social de órgãos públicos.
Após a conclusão do processo de Design Thinking, auxiliado pelo AuroraLab, a equipe do NJM liderada por uma de suas juízas coordenadoras tem trabalhado em torno da adoção do guia de diretrizes para a cobertura jornalística gerado a partir do projeto Diálogos com a Imprensa.
Documentos de comprovação:
Cobertura jornalística em casos de feminicídio será tema de oficina
Paz em Casa: TJDFT discute cobertura jornalística sobre violência doméstica e feminicídio
Oficina Diálogos com a Imprensa do TJDFT repercute na mídia
Diálogos com a Imprensa – Promotora Gabriela Gonzalez
- E-mail do laboratório: auroralab@tjdft.jus.br