Se tem um aprendizado que reina aqui no LabLuz e que levarei para a vida é o de que "palavras são pontes ou muros". Hoje falo de um experimento recente, ainda em curso, mas que já trouxe a prova definitiva. Em parceria com uma vara que atende casos de violência contra crianças e adolescentes, redesenhamos o mandado de intimação para depoimento especial e estamos aqui olhando para uma primeira parcial dos resultados. Reduzimos o índice de ausências de 62% para 47%, no recorte masculino do público. Um salto que não é só numérico: é sobre proteger vítimas, agilizar processos e ressignificar a comunicação da Justiça.
O problema que ninguém via (até que olhamos pelos dados)
O depoimento especial é um dos momentos mais delicados do sistema de Justiça. Crianças e adolescentes revivem traumas para relatar violências, e a ausência das partes intimadas prolonga esse sofrimento. Mesmo assim, 62% dos intimados não compareciam(índice de absenteísmo dos destinatários do sexo masculino).
Por quê? Ao analisar os mandados, identificamos um padrão: termos como "intimação", "determinações judiciais" e "penalidades" eram compreendidos apenas por quem já tinha familiaridade com o jurídico. Para muitos, o documento parecia uma carta de ameaça, não um convite ao acolhimento.
A hipótese: clareza como ferramenta de justiça
Apostamos que simplificar a linguagem e o design do documento aumentaria o engajamento. Mas não ficamos na intuição: estruturamos o experimento, definindo métricas como a taxa de comparecimento;
O novo mandado foi desenhado com:
✔️ Frases curtas (ex: "Sua presença é necessária para proteger [nome da criança]" em vez de "Intima-se o requerido para comparecer");
✔️ Ícones explicativos ilustrando etapas do processo;
✔️ A inclusão de um QR Code que direciona a um vídeo explicativo em linguagem simples;
✔️ Destaque em cores para consequências da ausência.
Os números que contam histórias
A sazonalidade de coleta de dados que definimos para esse caso foi de 6 (seis) meses e esses meses se passaram. Pois bem, os resultados chegaram:
Queda de 15 pontos percentuais no absenteísmo do público masculino (62% → 47%);
Até aqui, estamos bem empolgados e cada vez mais certos de que quando a linguagem é clara, as pessoas agem. E se a Justiça fala de forma humana, ela não só resolve conflitos, mas também previne novos traumas.
O que aprendemos (e para onde vamos)
- Gênero importa: Homens, historicamente menos engajados em audiências familiares, responderam melhor à linguagem direta. Não percebemos nenhuma alteração no absenteísmo do público feminino.
- Design é informação: Elementos visuais reduziram a ansiedade em relação ao processo.
Agora, testaremos:
➡️ Mexer na hierarquia da informação, ajustando o posicionamento de local, data e hora da audiência para verificar os efeitos nos resultados;
➡️ Aumentar o número de varas e comarcas utilizando o novo modelo, para que o universo de casos seja maior, assim como a significância estatística dos resultados produzidos;
➡️ Inserir um nudge para explorar a personalização afetiva, reforçando a conexão emocional do responsável legal com a criança/adolescente que dele depende para ir à audiência.
Para Refletir (e Agir)
Este caso não trata da "melhoraria de um documento". É sobre desmontar barreiras invisíveis que impedem a Justiça de cumprir seu papel. Quantos outros "termos técnicos" estão afastando cidadãos de direitos e responsabilidades?
Se você atua no setor público, proponho um desafio: pegue o último documento que sua equipe enviou à população e leia em voz alta. Se soar como um labirinto, talvez seja hora de repensar não só as palavras, mas a empatia por trás delas.
E no seu campo de atuação: qual "muro" de linguagem você pode transformar em ponte?